Aos Críticos

" Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama:Olha uma borboleta!” O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: — "Ah! sim, um lepidóptero...”"

"Aos Loucos e Raros"

Apresento minha grande contradição, o que posso mostrar de meu mundo, de meu ser, de meu são.



Tuesday, April 01, 2014

Quando florem os flamboyants

A arte transborda em cores intensas.
A tela, os tubos de tinta os pinceis,
não são mais suficientes para comportar
a imensidão que se faz da obra.

O vermelho escorre com delicadas pinceladas
amarelas, brancas, laranjas,
mistura-se no chão , deita na relva,
nas mãos, nas paredes do corpo,
misturam-se os cabelos, a pele, às flores.

O artista torna-se obra
e a intensidade da vida
matéria prima.

Sob a proteção da frondosa copa,
em prazer profundo,
dorme na sombra aconchegante a razão.
Flamejam, incendeiam, sentimentos

O calor invade a primavera
quando explodem os flamboyants.

Thursday, March 20, 2014

Correnteza

Ela olhava tímida por entre
as outras flores e folhas das arvores,
via lá embaixo o rio que corria
com forte delicadeza.

Respirou profundo,
corajosamente desprendeu-se dos galhos,
com uma dança graciosa
deslizou pelo vento até tocar a agua.
  
Como se fosse sugada por um turbilhão,
foi arrastada por entre galhos, plantas e pedras,
agarrou-se na esperança de salvar-se,
deixou um caminho cheio de marcas.

Afogou-se em seus amores,
raivas e sentimentos despretensiosos.
Afogou-se  no rio  das confusões de si,
arranhões, machucados e cicatrizes …

pedra, galho, correnteza, margem, mato, planta
bicho, chão... pedra, pedra, pedra correnteza.

Então, um carinho...
Entregou-se aos braços do rio,
E ele a abraçou em segurança
para levá-la ao mar

" A correnteza do rio vai levando aquela flor..."

Thursday, March 06, 2014

O despertar da Rainha


Em um desses voos noturnos,
num dia de cheia no céu
vi quando a lua tornou prata o sangue que corre nas veias da terra.

Brilhava a cada curva revelando o curso.
Corria vivo, margeado pelo destino
para levar a mensagem da vida.

Tocaram os tambores
e as estrelas responderam no céu,
como um eco das flores e ervas na mata

Perfumes exalavam pelos poros das plantas,
uma inspiração profunda preencheu o pulmão do tocador,
tocou em transe às notas trazidas pelo cheiro do vento.

Da cama de folhas na terra,
de seu sonho,
tocada pelas aguas prateadas,
e ungida pelo sangue da terra,
despertou nua e em toda sua natureza de mulher,
a Rainha.

Monday, March 03, 2014

Ressaca

Era uma dança que havia que se dançar a dois.
Dançavam como uma dança mística, profana,
uma dança deliciosamente torta e errada,
uma dança cheia de prazeres a cada passo do par.

Um jogo de incerteza que levava a lugar algum.
Nem se  sabia  se  queria realmente chegar a algum lugar.

Era como o mar,
em suas marés que chegam arrebatadoras
cheias, cheias de tudo que não pode-se dizer
belas sensações, que preenchem um êxtase momentâneo
logo levadas pela vazante
como se nunca tivessem existido...

Fica o Vazio. 
Por um momento os dançarinos duvidam da realidade,
perdem-se no balaço do sono e dos sonhos
resta nas mãos a memoria do toque ,
e por todo corpo o frenesi do ressoar das ondas.
Ah sim,  estiveram realmente dançando!

Tuesday, August 13, 2013

Arcano XVI

Era um vez um menino,
em uma torre ele vivia e tudo sabia.
Lia sobre física, matemática, química e todas as icas...
Estudava, biologia, história, filosofia... e todas as ias
Pesquisava sobre religião, literatura e os sentimentos.
Ah! Os sentimento, estes eram o que mais lhe fascinavam
em toda sua fisiologia.
Se orgulhava de seu conhecimento e sua inteligência.
E olhava tudo do alto de sua torre julgando,
a negligência, a inexperiência e inabilidade.
Se estivesse lá embaixo a tudo saberia como melhorar.
Um dia resolveu descer da torre.
Olhou as pessoas de um outro ângulo,
olhou pela linha do sol, o horizonte
Não estava acostumado a andar sob essa perspectiva, tropeçou e caiu.
Uma garota o segurou pelo braço e lhe sorriu.
Ele sentiu sua pele macia e seu perfume de flor,
ouviu seu riso, desentendeu a tão estudada fisiologia do próprio corpo
desentendeu tudo o que havia aprendido, pois não compreendeu,
desesperou-se pois percebeu que nada sabia,
o menino havia lido tudo sobre o amor, mas não sabia amar.

Friday, March 02, 2012

Sonho do segredo


Mistérios, segredos sagrados

O segredo é velado
é guardado

Tão belo quanto inesperado
diferente aos olhos de todos os que podem ver

Indiferente aos olhos
dos que não tem permissão para vê-los

Um segredo não pode ser descoberto,
ele revela-se por vontade própria

Conquista-se um segredo para que se revele,

Thursday, February 02, 2012

Desapego

Não deixo meu passado enterrado
para que não torne e brotar em mim

Cuido para que somente as flores presentes
brotem em meu jardim

Não me importo com suas cores
folhagens,especie, espinhos,
mas apenas me preocupo em fazer
com que durem o quanto devem durar

E ao final do ano as recolho todas
e com agradecimentos as jogo para Iemanjá

De terra arada recomeço
a final, em jardim cheio de mais
não se pode plantar novas flores
e o que esta plantado pode não florescer.



Thursday, June 30, 2011

Bealtaine

E a criança do inverno fez-me lembrar de um belo dia de primavera- sim porque as flores também desabrocham no inverno- que ficou guardado em algum espaço no tempo em que as palavras foram pronunciadas para o universo:

Que a semente da harmonia brote todos os dias em nossas ações

Que a semente da paz cresça em nossas vidas

Que a semente do amor floresça em nossos corações

E que o nosso corpo seja a semente

Para o florescer de nossa alma.

Wednesday, March 23, 2011

Apontadores



Existem pessoas em nossas vidas que são como apontadores... Quando estamos grossos e traçando traços toscos, eles vem nos afinam, nos lapidam, e permitem que nossos traços tornem-se precisos e preciosos novamente.
Aprendi com alguém muito especial que as maiores dores que temos na vida vem de expectativas não atendidas, e que não precisamos suportar essas dores se não criarmos expectativas.
Viver com expectativas é viver um futuro que talvez nunca aconteça.
Então outro alguém igualmente especial nesses últimos tempos insistentemente me falou da importância de viver o presente, o simples fato de viver o presente talvez nos permitisse sentir menos dor, menos decepção, e sentir melhor e de forma profunda quando assim for necessário, e então vivemos as coisas intensamente, de forma a não precisar vive-las de novo.
Coisas fáceis de se fazer na palavra, mas difíceis de vivenciá-las.
Enquanto não atinjo a suprema arte e me desaponto, vou vivendo, vou crescendo e quando estiver madura quem sabe então eu consiga deixar a dor e simplesmente viver com a lembrança, com a memória, com as coisas e pessoas, com o presente.

Como um lápis
desenho minha vida
com bordas, com arabescos
com mimo, com carinhos

Desenho com simplicidade,
muitas vezes sem muita certeza
do que quero desenhar
Mas desenho...

Desenho sem rascunho
sem borracha
sem branquinho ou mata borrão

Sem preTexto
poetizo poesia
seguindo apenas
meu coração

Eu erro,
conserto e continuo
com cor, com dor

E então me canso,
me desaponto.

Os traços se esvaem sem
certeza, sem precisão
sem beleza,
monocolor sigo caminhando

Com traços toscos,
contrastes foscos
sem destino, sem foco

Até que alguém me aponte
Então sei por onde seguir
Afiada e lapidada
volto para o mundo

Doi deixar os pedaços
lascados para trás

Mas,
de ponta fina
volto eu a traçar, a trançar

Linhas tortas, mas precisas
caminho sem marcar fundo
o papel, às vezes branco
as vezes colorido, caminho
sem machucar ...

Hoje eu sou lápis...
Quem sabe amanhã eu possa apontar.

Monday, November 29, 2010

Awen



O espírito penetrante da poesia
Contado pelos ventos, cantado pelo mar

Silencioso, chega sorrateiro como a noite,
trazendo a lua e seus feitiços
para que os poetas encantem seus poemas
com a graça do sagrado e o mistério dos segredos

Transformando o profano em poético
o supérfluo em essencial, o cotidiano
na mais bela e inexplicável arte, a vida.

Inspiram os seres como o ar penetra os pulmões, 
expandindo e explodindo num êxtase de preenchimento

Denomina-se espírito, alma
por alguém que assim quis nomear
nomeio então de inspiração
presente em cada ser encarnado,
respirante, capaz de amar

A união entre as palavras, as frases,
os versos de um universo, sinapses
que se criam e transformam
todas as poesias em uma só,
toda inspiração em uma só

Aquela trazida pelo ar
contada pelo vento
que percorre todos os corpos
penetra todas as almas,

O poder de inspirar consciente
nos trás à consciência,
E do ordinário respirar surge então a poesia.